O futuro do jornalismo investigativo no país que mais investe em reportagens dessa categoria, os Estados Unidos, está nas mãos de organizações sem fins lucrativos que, com expressiva colaboração dos leitores, concentram seus esforços em matérias regionais - geralmente desprezadas pela mídia tradicional.Esse horizonte foi traçado por Joe Bergantino e Mark Horvit (da foto ao lado) - diretores do Centro de Jornalismo Investigativo de New England (Necir, na sigla em inglês) e do Investigative Reporters and Editors (IRE), respectivamente - na palestra "As melhores técnicas de investigação nos Estados Unidos" do 4º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, há alguns meses em São Paulo. Na ocasião, eu os entrevistei.
Segundo os dois jornalistas, a crise financeira provocou o desemprego de cerca de 1.500 repórteres especializados em investigações. Outra pesquisa mostrou que 80% dos jornalistas do país trabalham em redações que reduziram suas equipes investigativas. De acordo com a American Journalism Review (AJR), desde a crise, o número de setoristas do Congresso caiu 32% (de 522 para 355). Portanto, para Bergantino e Horvit, universidades e novos veículos alternativos sem pretensões comerciais são os espaços mais promissores para um jornalismo mais elaborado. Um sintoma disso seria a criação de sete novos centros jornalísticos regionais por lá neste ano.
Algumas das principais características desses veículos são as seguintes:
Ajuda alheia - Esses centros contam, geralmente, com muita colaboração dos leitores. Esse fenômeno é conhecido como crowdsourcing. O Talking Point Memo (TPM), site alternativo de opinião e investigação jornalística, pediu, por exemplo, que os leitores participassem da leitura de um calhamaço de documentos do governo americano, tarefa que a equipe do site não conseguiria fazer em tempo hábil. Deu certo. A técnica também já é usada pela mídia tradicional. O jornalão inglês The Guardian fez algo parecido e teve sucesso reconhecido internacionalmente. Eles conseguiram que 56% dos visitantes do site fizessem a análise de 170.000 páginas de documentos sobre o recente escândalo político nas primeiras 80 horas. O único problema do uso indiscriminado desse recurso, de acordo com os palestrantes, é o risco de os leitores errarem. É preciso checar o trabalho de alguma forma.
Vendendo o peixe - É comum que as matérias produzidas por esses veículos seja oferecida a grandes jornais e redes de televisão. Bergantino e Horvit acreditam que essa é uma forma interessante de alcançar muitos leitores e chamar atenção e donativos para a iniciativa. Além disso, na crise financeira, os grande parte dos jornais está muito mais propensa a comprar um material já pronto do que investir em uma longa e incerta investigação própria. Afinal, segundo Bergantino, "tudo o que é bem feito pode ser replicado".
Tempo de apuração - Repórteres investigativos de veículos como esse são dividos em pequenas equipes e se debruçam durante meses em uma só matéria. Eles também seguem uma cobertura até o fim, não ficam restritos à agenda da mídia.
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