Na semana passada, foram anunciados os vencedores do Prêmio Esso de jornalismo 2009. Contrariando as expectativas das redações do eixo Rio-SP-BSB, os ganhadores do prêmio principal foram os jornalistas Fabiana Moraes e Schneider Carpeggiani, do "Jornal do Commercio", do Recife, com o trabalho "Os Sertões". Os repórteres percorreram 4.713 quilômetros de estradas, desde a Bahia até o Ceará, para mostrar aos leitores a realidade atual dos locais descritos por Euclides da Cunha em sua obra centenária, onde hoje "convivem vaqueiros e pirateadores, beatos e travestis, cantadoras de incelências e traficantes, padres e b-boys."
Na lista de emails da Abraji, Vandeck Santiago, repórter especial do "Diário de Pernambuco", argumentou que, apesar de ir de encontro à expectativa do sudeste, a vitória de veículos nordestinos não contrariou a história recente do jornalismo brasileiro. Especificamente sobre Pernambuco, Vandeck lembrou que, de 2004 pra cá, jornais daquele estado ganharam 14 prêmios nacionais (quatro Essos, cinco Embratel, três Vladimir Herzog e dois prêmios Caixa) e cinco internacionais.
De acordo com o Vandeck (ele próprio dono de um Esso, só que na categoria Regional), em Pernambuco há uma "uma 'cena jornalística' - da mesma forma que tivemos uma 'cena' na música, com a moçada do manguebeat, e no cinema, com novos cineastas". Ele já havia dito algo parecido em um artigo publicado no "Diário" em 2008.
Ele cita cinco motivos pouco óbvios para a consolidação dessa cena a partir de 2004:
1) os veículos de lá não sofreram o endividamento em dólar dos anos 90.
2) a imprensa do sudeste extinguiu suas sucursais no estado, "com duas consequências imediatas: profissionais que antes iriam trabalhar nas sucursais ficaram na imprensa local e têm agora pela frente uma gama imensa de assuntos para explorar com exclusividade".
3) "enquanto a grande imprensa reduziu ao máximo o espaço para a reportagem especial, aqui ocorreu fenômeno inverso. Dou um exemplo pessoal: passei cinco meses de dedicação exclusiva a uma única matéria, que resultou em um caderno especial de 16 páginas limpas (sem anúncio!), 'O plano de Kennedy para desenvolver o Nordeste'".
4) Como em Pernambuco não há um mercado editorial consistente, matérias que no Rio ou em São Paulo virariam livro-reportagem, lá acabam nos jornais como reportagens especiais.
5) Em Pernambuco há concorrência direta entre "Diário de Pernambuco" e "Jornal do Commércio".
5) "A vitória sobre os holandeses nos deixou com a (boa) mania de 'pensar o Nordeste'. Por isso, as matérias daqui costumam ter como foco o Nordeste inteiro, e não só Pernambuco, o que amplia o alcance e profundidade do material; o investimento dos jornais Diario e JC, dando tempo e espaço, permite que as reportagens tenham caráter autoral - são feitas por um ou dois repórteres no máximo".
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